O poder

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O poder
Foto de Oleg Podlesnykh / Unsplash

Diz a história que Querofonte viajou até Delfos e perguntou ao oráculo quem era o homem mais sábio de Atenas. A sacerdotisa Pítia forneceu um nome: Sócrates. Quando informado sobre essa resposta, Sócrates duvidou. Infelizmente, esse foi um grande sábio não deixou nada escrito, quase tudo que sabemos sobre ele foi transmitido pelos escritos de Platão. Pois bem, Platão nos disse que Sócrates encucado com a informação trazida por Querofonte decidiu sair às ruas de Atenas e conversar com as pessoas, porque duvidava que era o homem mais sábio entre os seus conterrâneos. O desfecho da história é amplamente conhecido: para a surpresa do próprio Sócrates, a cidade estava tomada por pessoas cheias de opinião (doxa), mas pouquíssimo conhecimento (episteme). Utilizando o seu método de "parir a verdade" (maiêutica), Sócrates logo passou a ter um grande alvo vermelho nas costas, pois os políticos de Atenas interpretaram que aquilo ele estava fazendo nas ruas poderia engendrar subversividade entre os jovens.

A maiêutica socrática era um processo dialético que envolvia basicamente dois movimentos. No primeiro havia a desconstrução da doxa, isto é, das opiniões que os homens tinham, mas que não faziam a menor ideia de como elas poderiam ser racionalmente sustentadas, nem sequer de como elas tinham entrado nas suas cabeças. Quando o interpelado ficava atônito, quer dizer, quando ele ficava cônscio da sua ignorância, Sócrates iniciava o segundo movimento da maiêutica. Por meio de uma série de perguntas, ele induzia o interpelado a uma espécie de "mineração da alma" — uma profunda reflexão em busca de respostas.

A elite ateniense, majoritariamente sofista, não tardou em levar Sócrates a julgamento. A principal acusação era que Sócrates estava "corrompendo" os jovens da cidade. A correta tradução disso é que ele estava pondo em risco a tradição sofista, diga-se, pondo em risco o método de convencer ouvintes por meio de oratória hábil. Os sofistas não tinham qualquer comprometimento com a verdade, eram relativistas, a prática visava obter vitórias nos debates com o uso da retorica. Por conta disso, a elite política não estava nem um pouco interessada em ver seus filhos "perdendo tempo" em busca de algum conhecimento verdadeiro — o "só sei que nada sei" socrático atentava contra o utilitarismo que eles visavam. O objetivo era claro: a formação de oradores invencíveis. Em uma época em que a informação circulava entre os cidadãos principalmente pelas reuniões em praças públicas (Ágora), a possibilidade de moldar o pensamento das outras pessoas dependia da capacidade de proferir bons discursos. Após um processo de julgamento em que Sócrates refutou totalmente as suas acusações – algo que só serviu para enfurecer mais ainda os seus algozes —, o filosofo foi sentenciado ao exilio, mas não aceitou. A recusa da sentença culminaria na pena de morte, algo que Sócrates pareceu ter escolhido sem qualquer hesitação.

Controlando a informação

O caso de Sócrates talvez possa ser interpretado como um dos primeiros casos bem relatados da ganância de detentores do poder em controlar a opinião pública, além de mostrar que o destino de alguém que desafia esse poder é alguma acusação infundada e condenação severa. Pouco mais de quatro séculos depois, um carpinteiro (para muitas pessoas, o próprio Deus encarnado) também desafiou o monopólio da informação religiosa de um determinado povo, e sabemos que foi condenado a uma das penas de morte mais terríveis que se pode ter.

Posteriormente, na Idade Média, foi a própria Igreja Católica que manifestou uma enorme fome pelo monopólio da informação. A insistência em não permitir a tradução da Bíblia a outros idiomas além do latim era uma forma óbvia de manter os fiéis reféns dos clérigos. Se um cidadão da Idade Média fosse alfabetizado no seu vernáculo — um privilégio tendo em vista a alta taxa de analfabetismo —, isso não era garantia alguma de que ele pudesse ler alguma passagem das Escrituras, a não ser que soubesse o latim (existiam também traduções antigas em grego e em hebraico). Para se ter uma ideia do quão extremo se tornou a tentativa de garantir o monopólio da informação, um dos pioneiros mais importantes da tradução da Bíblia para o inglês, o corajoso William Tyndale (1484-1536), foi condenado à morte (a condenação formal não se deu pela tradução da Bíblia, mas sim por outros de seus escritos que foram classificados como heréticos pela Igreja; no entanto, muitos defendem que o principal motivo foi de fato a tradução).

Em nível de escala de atrocidades correlacionadas com o domínio da informação, o século XX foi sem dúvida o pior de todos. O comunismo, o fascismo e o nazismo mataram juntos mais do que a gripe espanhola. O curioso é que o primeiro, justamente o maior causador de mortes, continua operando impunemente por aí. Um dos alicerces da Revolução Bolchevique foi a máquina de propaganda iniciada com o jornal Pravda fundado por Leon Trótski (1879-1940), que teve a sua primeira edição em 1908. Posteriormente o Pravda se tornou um veículo oficial do Partido Comunista da União Soviética, fazendo parte de um amplo programa que ficou conhecido como Agitprop. O programa foi uma das maiores mobilizações propagandistas que já se teve notícia, envolvendo o uso massivo de ferrovias e barcos para levar informação manipulada aos rincões da gélida Rússia Soviética.

Sabemos também que anos mais tarde um hábil orador apoiado por um marqueteiro e orador ainda mais hábil utilizou o domínio da comunicação para uma das maiores engenharias sociais da história. Hitler apoiado por Joseph Goebbels (além de outros como, Alfred Rosenberg, que comandou o jornal Völkischer Beobachter) moldou a mentalidade do povo alemão de uma maneira que parece ter beirado a magia. Com a ajuda de meios de comunicação mais modernos como, o rádio e o cinema, os nazistas conseguiram atribuir todas as chagas da humanidade ao povo judeu. Além disso, conseguiram fazer com que a maioria do povo alemão acreditasse ser de uma suposta raça humana superior predestinada a subjugar as outras. 

Do lado mais oriental, o desafio do Partido Comunista Chines para o controle da informação era muito maior do que o da Rússia Soviética ou o da Alemanha Nazista. Havia uma dificuldade natural, dado o tamanho da população, mas, para além disso, sempre houve o fantasma da liberdade daqueles que perderam a guerra civil, mas dominaram uma ilha distando apenas 180 km da China continental. Entretanto, Mao Tsé-Tung pode se inspirar no que havia funcionado nos programas dos soviéticos e dos nazistas, e certamente isso lhe rendeu uma vantagem inicial significativa. Seus sucessores seguiram seus passos e se adaptaram às novas realidades. Por exemplo, no limiar da internet foi criado o que passou a ser conhecido como o "Exército dos 50 centavos", uma legião de internautas remunerados pelo partido com a única missão de criar conteúdo propagandista para o regime comunista. Uma verdadeira avalanche de propaganda associada a um amplo aparato garantidor da censura que perdura até hoje. Os que conseguem furar o bloqueio e tecem alguma crítica ao regime são presos assim que identificados. E não são apenas cidadãos comuns, é frequente o sumiço de algum "figurão" (membros do alto escalão do partido, militares de alta patente ou empresários bilionários). Atualmente o Partido Comunista Chinês é, em tamanho, o maior órgão monopolista de informação do mundo. É claro que ele perde em "performance", por exemplo, comparado ao regime norte-coreano, mas em escala nada se compara ao regime chines.

Sabemos que o Brasil viveu, em um passado não tão distante, um período autoritário que envolveu o controle da informação. Na verdade, o cinema nacional tenta nos lembrar disso lançando ao menos um filme por ano financiado por recursos públicos. Precisamos pausar aqui e falar um pouco sobre isso. A saturação de filmes do cinema sobre o período militar revela uma enorme mediocridade dos produtores, diretores e atores, porque mostra que eles tentam a projeção internacional não por meio da construção de filmes criativos e inteligentes, mas sim por meio da exploração de alguma pauta estereotipada. Sabemos no que a Academia de Cinema (Academia de Artes e Ciências Cinematográficas) se transformou nos últimos anos. Basta um retrato dos últimos 20 anos para notar que a probabilidade de premiação é exponencialmente maior para filmes que atendem a "agenda". Coloquemos da seguinte forma: para que o Rocky I – ganhador do Oscar de melhor filme em 1977 – pudesse vencer atualmente, certamente algumas alterações seriam necessárias, talvez transformando a tímida Adrian (Talia Shire) em algum Adriano.

Qualquer um que tenha assistido O Lobo de Wall Street (2013) percebe que foi de longe a melhor atuação do militante progressista Leonardo DiCaprio (progressismo para os outros, não para ele, pesquisar "gráfico Leonardo DiCaprio"). Oscar de melhor ator em 2013? Não. Oscar de melhor ator em 2016 pela atuação em O Regresso, no qual ele interpreta o explorador americano Hugh Glass (1780-1833). Ocorre que apesar de O Regresso ser um bom filme, DiCaprio passou mais da metade do tempo destroçado e rastejando pelo chão sem falar absolutamente nada após ser atacado por uma mãe ursa. Desconfio que até mesmo o brasileiro Fiuk faria igualmente bem esse papel. Mas é claro, a Academia viu que tinha ficado em dívida com DiCaprio pela sua atuação em O Lobo de Wall Street e bastou ele atuar em um novo filme que atendia uma pauta da "agenda" (opressão contra os povos nativos) para ser agraciado com a estatueta.

Retomemos ao fio condutor. O regime dos militares não chegou a monopolizar diretamente a informação, por exemplo, permitindo apenas a existência de um jornal oficial estatal, mas mantinham os veículos de comunicação privados sob vigilância total. Havia a figura do censor, que filtrava nas redações o que podia ser publicado e o que não podia. No entanto, esse mecanismo foi implementado depois, nos anos mais duros do regime. No período pré-regime e logo no período inicial, enquanto a imprensa ainda era completamente livre, vários veículos de comunicação apoiaram a intervenção militar.

Cartas Ruy Mesquita e Lapouge. Foto: Acervo Estadão - 21/06/1964

Capa do Estadão em 21 de junho de 1964.

Capa da Folha de São Paulo (1964)

 

Por mais que haja um enorme esforço para apagar a história, a verdade, disse Sidarta Gautama (Buda), assim como o Sol e a Lua, não pode ser escondida por muito tempo. Contra fatos não há argumentos, ou melhor, nesse caso, contra arquivos não há argumentos. Os interventores tiveram apoio da imprensa livre. Os que insistem em condenar a imprensa livre da época pelo apoio à intervenção ou são completos ignorantes ou fazem parte do grupo que perdeu. E aqui é o ponto que merece mais atenção, pois o grupo que perdeu NÃO lutava pela democracia em 1964 (pensar que eles lutavam é o maior equívoco dos ignorantes), mas sim pela imposição de um outro regime autoritário: um regime comunista apoiado por Moscou. Isso é história, não é opinião. O próprio Estadão assumiu que o dilema da época era esse, da maneira mais direta possível:

 

https://www.estadao.com.br/150-anos/150-momentos/estadao-publicou-correspondencias-de-ruy-mesquita-e-gilles-lapouge-sobre-o-golpe-de-1964/?srsltid=AfmBOoqVJCtCnFOTa2QjQt0i2-jzewPwNE4kV7guNhNHC6sGtBpuynYZ

 

Sangue versus rios de sangue e pilhas de cadáveres

Os crimes que os militares cometeram depois são outro assunto. A história mostra com nitidez que qualquer acúmulo de poder tende a causar problemas (vide o exemplo da Igreja Católica que eu mencionei anteriormente). Não podemos saber com precisão os contrafactuais, ou seja, o que teria sido do Brasil caso os comunistas tivessem chegado ao poder, mas pela história dos países que implementaram, podemos ter uma ideia aproximada. Se formos comparar os efeitos colaterais dos regimes, infelizmente temos que ser objetivos. Qualquer morte de inocente causada por regimes autoritários é deplorável, mas, se há dois regimes que causam mortes de inocentes, e é preciso compará-los, a única forma de se fazer isso por análise quantitativa. Em outras palavras: qual regime autoritário jogou mais inocentes em covas. É necessário ter em mente algo fundamental. Como o próprio Estadão deixou claro na sua revisão sobre a história, a opção da época não era entre uma democracia e o regime militar, mas sim entre um regime comunista e o regime militar. A opção democrática só se tornou possível após o declínio da União Soviética no final dos anos 80, quando ela perdeu capacidade de projetar poder no resto do mundo. Vou colocar da seguinte maneira: se o cardápio só oferece repolho, repolhos devem ser comparados com outros repolhos, não podem ser comparados com morangos. É a escolha entre o mal menor e o mal maior.

A Comissão da Verdade, uma iniciativa lançada pelos remanescentes do grupo da ala comunista perdedora de 1964, que chegou ao poder no Brasil décadas depois (entre eles, Lula, Dilma Rousseff, José Dirceu, José Genoino e cia) foi criada em 2012 para investigar os crimes cometidos pelo regime militar. A comissão encerrou as investigações em 2014. O relatório final com cerca de 2 mil páginas conclui que houve 434 mortos e desaparecidos nos 21 anos de regime militar. Veja bem, estamos falando de uma comissão formada por investigadores que integraram no passado o grupo que desejava impor um regime comunista no Brasil. Alguns deles viram seus amigos e familiares serem mortos e outros foram eles próprios presos e torturados. O que eu estou querendo dizer ao enfatizar isso é que não poderia haver uma comissão mais rigorosa do que essa, pois foram os próprios açoitados que se tornaram os investigadores. Portanto, certamente eles trabalharam com o máximo de empenho para não deixar qualquer vítima de for a do relatório.

Ressalto mais uma vez que qualquer morte inocente é lamentável. No entanto, o fato é que 434 mortos fariam Fidel Castro, Lenin, Stalin e Mao Tsé-Tung caírem em gargalhadas. Na verdade, se os subalternos desses ditadores incumbidos de reprimirem os opositores apresentassem um saldo de 434 mortos ao final de um único ano (lembrando que no Brasil foram 434 em 21 anos), provavelmente esses próprios subalternos seriam condenados à morte por "baixo desempenho". É amplamente sabido que Fidel Castro matou mais de 3 mil opositores por fuzilamento apenas nos dois primeiros anos do regime. A Tcheka, a polícia secreta de Lenin, matou cerca de 1 milhão de pessoas na Rússia Soviética entre 1918-1922. Na China, dois grandes massacres são amplamente documentados: "Agosto Vermelho" em 1966 e o "Massacre de Guangxi" ocorrido entre 1967 e 1968. No primeiro a chamada Guarda Vermelha fez uma limpeza no sistema educacional no âmbito da Revolução Cultural, matando cerca de 10 mil pessoas, principalmente professores e diretores. Para se ter uma ideia talvez o método menos bárbaro entre os utilizados era a decapitação; os outros envolviam "pisoteio", "fervura" e "fatiamento". Já no Massacre de Guangxi, o número de assassinatos foi bem maior, cerca de 150 mil vítimas. Os métodos, no entanto, foram ainda mais brutais: enterramento vivo, evisceração e até canibalismo.

Olhando para isso tudo fica claro que pelo menos em relação aos militares castelistas (em referência ao general Castelo Branco) que defendiam uma transição rápida (diferentemente dos militares "linha-dura" posteriores), o cinema nacional deveria estar fazendo filmes de agradecimento em função do mal menor. Entretanto, abro um parêntese para apontar que certos membros da dita direita brasileira dão combustível às narrativas por ovacionarem justamente alguns dos algozes do regime militar brasileiro, por exemplo, o coronel Carlos Ustra (1932-2015). Esses políticos deveriam admitir publicamente que existiam esses assassinos no regime e focar no argumento comparatista, visto que, mesmo com a existência de crimes, ainda é possível argumentar que o regime brasileiro foi milhares de vezes menos mortal do que os regimes comunistas. Se os militares brasileiros tivessem sido tão sanguinários quanto os comunistas, eles poderiam ter realizado um processo idêntico, por exemplo, ao que foi feito na China. Pois é amplamente sabido que a maioria dos opositores brasileiros que não pegaram em armas contra o regime militar se aglutinaram nas universidades e nas redações dos jornais, de modo que seria muito fácil para qualquer regime mais violento dizimar toda a dissidência (à la Agosto Vermelho chinês).

A assimetria entre os regimes se torna ainda mais acachapante quando adicionamos as mortes causadas pelos estapafúrdios planos econômicos dos comunistas. Se o regime militar brasileiro tivesse causado uma única morte por inanição, tenha certeza que existiriam pelo menos uns 50 filmes explorando a questão. No entanto, essa crítica não cabe ao caso brasileiro. Os regimes comunistas foram verdadeiros máquinas de matar pessoas de fome, como ficará evidente a seguir:

Fome Povolzhye (Rússia Soviética 1921-1922): 5 milhões de mortes;

Fome de Holodomor (países soviéticos 1932-1933): 11 milhões de mortes;

Fome Soviética (países soviéticos 1946-1947): 1,5 milhão de mortes;

Grande Fome Chinesa (China 1958-1961): 50 milhões de mortes (a maior já conhecida);

Grande Fome da Coréia (Coreia do Norte 1994-1998): 3 milhões de mortes.

Envenenando o inimigo

A exposição dessas atrocidades não é mais realizada pelos principais meios de comunicação ocidentais. Existem algumas tentativas de encontrar causas para isso. Talvez a mais conhecida seja aquela amplamente difundida por teóricos políticos que dizem que isso é consequência da estratégia "gramsciana" em referência ao idealizador Antonio Gramsci (1891-1937). Gramsci defendeu matar o inimigo faseadamente por dentro. Começando de baixo para cima, isto é, dominar antes as bases da sociedade, como a educação e os meios de comunicação, para depois dominar o poder político (o topo). O problema com essa teoria é que ela é antiga, e o fenômeno da conquista das universidades e dos meios de comunicação ocidentais pelos comunistas parece ter sido iniciado paulatinamente na década de 1980, acelerando vertiginosamente a partir dos anos 2000. As posições do Estadão e da Folha de São Paulo em 1964, bem como a produção cinematográfica hollywoodiana anterior à década de 1990, são provas desse rastro cronológico. O defensor da hipótese explicativa gramsciana diz que esse lapso temporal entre a ideia de Gramsci e a sua efetiva implementação se justifica pelo foco na guerra econômica. Quer dizer, enquanto os soviéticos ainda guardavam esperança de que o modelo de estatização poderia derrotar o livre mercado, a estratégia gramsciana não recebeu muita atenção. No entanto, diz o teórico, que com o declínio da União Soviética no início da década de 1980 e sua queda em 1991, os comunistas alçaram a estratégia como sendo a única arma viável contra o Ocidente: tomar os meios de comunicação e universidades ocidentais, além dos organismos internacionais.

Outros teóricos políticos dizem que após o colapso da União Soviética, os comunistas russos não faziam muito mais além de beber vodka. Essa linha vai defender que a tomada dos meios das universidades e dos meios de comunicação ocidentais coincide com a ascensão da China. Ou seja, é ainda a mesma estratégia gramsciana, mas liderada pelo Partido Comunista Chinês. Essa segunda vertente de explicação parece fazer mais sentido. Reparem na enorme carência informativa que há na atualidade sobre os crimes perpetrados pelo regime chinês. E podemos nos restringir aos males atuais, eles bastam, não é preciso apelar para os males do século passado mencionados anteriormente. Um caso será suficiente.

No noroeste da China há uma região autônoma chamada Xinjiang (Sinquião) que abriga cerca de 20 milhões de habitantes, sendo que quase metade dessa população é composta por uma minoria étnica: o povo uigur. Desde meados de 2014, os uigures têm sido vítimas de perseguição pelo Partido Comunista Chinês sob a administração de Xi Jinping. São campos de concentração de trabalho forçado em pleno século XXI, aos quais o governo chines se refere eufemicamente como campos de "internação" ou "reeducação". A administração chinesa alega que esses campos existem para combater o "extremismo" ("qualquer semelhança é mera coincidência"). A reeducação da administração chinesa envolve métodos muito "didáticos", por exemplo, aborto forçado, esterilização forçada, espancamentos, choques elétricos, afogamento simulado, experiências médicas, entre outros. Não se pode dizer que os métodos não funcionam quando o objetivo é realizar uma limpeza étnica. A taxa de natalidade entre os uigures caiu cerca de 50% desde 2015. Além disso, as estimativas indicam que, dos cerca de 2 milhões de uigures detidos nos campos de detenção, 200 mil adultos morreram em função dos exóticos "métodos educacionais".

Se trata de um verdadeiro genocídio em andamento. Mas quanta atenção a imprensa ocidental dá ao genocídio do povo uigur? Ela dá o mínimo necessário para não ser acusada de nunca ter tocado no assunto. E Hollywood? Não chegou em Xinjiang, parou no Tibete em 1997 (Sete Anos no Tibet). E os organismos internacionais que abrigam os "intelectuais"? O que fez a loquaz ONU para salvar os uigures do genocídio em andamento? Algo semelhante ao que mídia faz: o mínimo necessário para não ser acusada de "prevaricação". Bom, você pode pensar que isso pode ser um indício significativo de que há uma estratégia gramsciana comandada pelo Partido Comunista Chinês. Meios de comunicação e organismos internacionais parecem de fato tomados. Mas se você não dá muita atenção ao assunto, certamente deve achar que ao menos o Vaticano deve ser muito ativo contra o genocídio uigur. Se você intui isso, é porque ainda tem algum resquício na memória da atuação do Papa João Paulo II contra as atrocidades dos regimes comunistas.

Desde o início do genocídio em 2014, houve uma única menção do papado à questão, feita timidamente em 2020 pelo Papa Francisco em um de seus livros. Estranhamente o falecido Papa Francisco pareceu achar – visto o volume de críticas que foram direcionadas ao assunto — que o muro construído por Trump na fronteira com o México era algo mais mortal que os campos de concentração chineses. Ou faltava sanidade mental a ele, ou ele agiu guiado por interesses espúrios. Felizmente, o pontífice recebeu uma reposta muito adequada por falar besteira. O presidente Trump expôs a hipocrisia da crítica, lembrando que o Vaticano é o país mais murado do mundo. A resposta carregava a seguinte mensagem implícita: "derrube o seu muro que eu penso em derrubar o meu, caso contrário, cale-se". Mas o Papa Francisco conseguiu ser superado por um papa ainda mais patético quando se trata de não esconder a "passada de pano" nos crimes em andamento dos russos, chineses, norte-coreanos, cubanos, iranianos e cia. Felizmente, ele também recebeu uma boa resposta recentemente. Se essa seletividade papal não é o sinal mais evidente de que o Vaticano já foi tomado, eu não sei mais qual é o sinal que precisa ser dado (e aqui quem fala é um católico de formação).

Mesmo sendo uma estratégia gramsciana liderada pelos chineses, parece que todos os outros regimes autoritários acabaram entrando no "contrato". Basta ver a falta de isonomia por parte dos meios de comunicação, da ONU e do Vaticano no tratamento dado aos conflitos e atrocidades pelo mundo. A Rússia vem matando deliberadamente inocentes ucranianos com ataques a hospitais e escolas há mais de quatro anos, mas quando os americanos erram um míssil contra um regime de fanáticos — regime que matou recentemente cerca de 30 mil manifestantes, que financia terroristas por todo o mundo, que tem um lema abertamente de "Morte à América" e que trata as suas mulheres como seres inferiores —, o Vaticano, a ONU e a imprensa ocidental dedicam horas e mais horas na cobertura do caso. É claro que isso deve ser noticiado, foi algo terrível. Mas os ataques deliberados dos russos a escolas ucranianas deveriam ser muito mais noticiados, pois o ataque americano se tratou de um erro — inclusive com investigação aberta para identificar os responsáveis pela tragédia — já os ataques russos são contra civis ucranianos intencionais, bem como o genocídio chinês contra os uigures.

O abestado que pensa que Trump é um demônio não tem a capacidade de pensar que, mesmo se ele for o tinhoso, ele ainda é o presidente da democracia constitucional mais longeva do mundo. E matar crianças iranianas, além de não ser nenhum pouco popular, acarreta o risco de processos criminais em um país onde a separação dos três poderes verdadeiramente funciona. Logo, o míssil que atingiu a escola iraniana obviamente se tratou de uma fatalidade. XI Jinping e Putin, por outro lado, não precisam se preocupar com as suas popularidades, pois não precisam fazer sucessores e muito menos correm o risco de serem julgados nos seus tribunais por seus crimes.  É evidente que o Vaticano tem que contratar urgentemente alguns especialistas para ministrarem aulas de dissimulação aos papas, porque claramente eles são os piores quando se trata de esconder o acordo que fizeram. Por vezes, é a própria mídia comparsa que parece tentar lembrar os papas para serem um pouco mais discretos.

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2023/08/29/vaticano-da-explicacoes-para-declaracao-polemica-do-papa-francisco-sobre-a-russia.ghtml

A maneira como o poder que controla a informação vem conseguindo moldar o pensamento do ocidental nos últimos anos é estarrecedor. Confesso que o trabalho pode até ser um pouco fácil para a mídia, para os organismos internacionais e também para o Vaticano, pois muitos ocidentais parecem ter memórias apenas pouco superiores às de peixes. Eu já disse em outra ocasião que o Sr. Hussein Obama interveio militarmente na Líbia em 2011 (ver o texto de outubro de 2025, intitulado Checando). No entanto, não entrei em alguns detalhes daquela intervenção, algo que me proponho a fazer agora.

Entre os anos de 2010 e 2011, irrompeu simultaneamente uma série de protestos em vários países árabes, entre os quais a Líbia, fenômeno que passou a ser conhecido como "Primavera Árabe". Na época, a Líbia era comandada pelo ditador Muammar al-Gaddafi há mais de 40 anos. O Sr. Gaddafi era amplamente conhecido por comandar o país com mão de ferro. A Líbia obtinha quase 60% das suas receitas com as exportações de petróleo, sendo que a maior parte servia para enriquecer o círculo de confiança de Gaddafi, com o único propósito de garantir a permanência no poder (situação muito semelhante à da Venezuela, Irã e Rússia). O regime também era conhecido por financiar terroristas em outras partes do planeta, sobretudo grupos rebeldes no continente africano. Além disso, o Sr. Gaddafi também tentou por diversas vezes obter bombas nucleares. Iniciou tentando comprar a tecnologia da China durante a década de 1970, depois do Paquistão e, por fim, da Índia. A saga em busca da tecnologia nuclear perdurou até o início dos anos 90, mas acabou restando fracassada.

Todo ditador ou candidato a ditador sabe que a única garantia real da perpetuação do seu regime, enquanto houver uma "polícia no mundo", é a obtenção de bombas nucleares. Chineses, russos e norte-coreanos são as provas disso. Gaddafi não conseguiu e caiu. O Sr. Hussein Obama começou a lançar os seus BGM-109 – os temidos misseis Tomahawk – contra as forças armadas da Líbia em 19 de março de 2011, após a Resolução 1973 da ONU que visava a proteção dos civis que protestavam contra o regime de Gaddafi. E uma curiosidade: o Itamaraty da Sra. Dilma Rousseff se absteve na votação junto com a China e a Rússia. O flerte do PT com os regimes autoritários e sanguinários é escancarado. Mas isso não é a pauta agora. O fato é que o Sr. Hussein Obama liderou uma coalizão que bombardeou as forças armadas da Líbia por mais de 7 meses, que culminou na captura e na execução de Gaddafi pelos rebeldes líbios sem qualquer devido processo legal. Ainda assim, estranhamente, os líderes ocidentais não se privaram de saudar publicamente a morte de Gaddafi. Lembremos o que foi dito na época:

Sr. Hussein Obama: "Ela [a morte de Gaddafi] marca o fim de um capítulo longo e doloroso para os habitantes da Líbia que têm, a partir de agora, uma chance de poder determinar seu próprio destino em uma nova Líbia democrática"[1];

Sr. David Cameron (primeiro-ministro britânico): "Hoje é um dia para recordar todas as vítimas do coronel Kadhafi [...] e as inúmeras pessoas que morreram nas mãos deste brutal ditador e de seu regime"[2];

Sr. Herman Van Rompuy (presidente da União Europeia): "a morte de Gaddafi marca o fim de uma era de despotismo e repressão durante a qual o povo líbio sofreu muito"[3].

A gárrula ONU, tão falante em relação ao Irã atualmente, foi bem tímida em relação à Líbia. Ela solicitou uma investigação para apurar se Gaddafi foi capturado vivo e depois executado — o que configuraria um crime de guerra. Um promotor do TPI afirmou em dezembro de 2011, após um pedido de investigação de Ayesha Gaddafi  (filha de Gaddafi) que havia indícios de crime de guerra. Entretanto, a ONU terminou encerrando a investigação sorrateiramente, o que é algo muito estranho tendo em vista que há uma prova derradeira (um vídeo) de que Gaddafi foi capturado vivo (ver https://tab.uol.com.br/videos/?id=novo-video-mostra-os-primeiros-minutos-da-captura-de-gaddafi-04028C9A3860C4912326 ). 

O leitor certamente deve ter notado que a Líbia de Gaddafi era muito semelhante ao Irã de Ali Hosseini Khamenei. Receitas provenientes do petróleo, corrupção generalizada que garante o regime no poder, financiamento de grupos terroristas pelo resto do mundo etc. No entanto, há pelo menos três diferenças significativas entre os dois regimes. Em primeiro lugar, as estimativas indicam que, no eclodir da Primavera Árabe, o regime de Gaddafi assassinou cerca de 10 mil manifestantes, enquanto estimativas indicam que o regime de Khamenei assassinou cerca de 30 mil iranianos na onda de protestos de janeiro de 2026[4]. Ou seja, o regime iraniano matou mais. Em segundo lugar, no início da Primavera Árabe que antecedeu os ataques dos americanos, Gaddafi havia fracassado há muito tempo na tentativa de obter a tecnologia nuclear; enquanto o regime de Khamenei, no período de massacre de manifestantes que antecedeu os ataques americanos possuía (e ainda possui) mais de 400 kg de uranio enriquecido a 60% — algo que pode se transformar rapidamente em cerca de 10 bombas. Em terceiro lugar, por mais que o regime de Gaddafi sempre tenha tido uma posição crítica aos EUA, ele não tinha, assim como o regime iraniano tinha e ainda tem, um slogan político tão abertamente ofensivo aos EUA: o “Marg bar Amrika”, o famigerado “Morte à América”.

Por esses três fatores, o obvio deve emergir em qualquer mente sã: o bombardeio americano contra o regime da Líbia teve menos sustentação fática e jurídica quando comparado ao bombardeio contra o regime do Irã. Então, por que cargas d'água, ouvimos massivamente críticas e mais críticas estapafúrdias contra o ataque americano recente ao Irã e não ouvimos sequer um pouco das mesmas ladainhas na época do ataque americano à Líbia? A resposta é muito evidente: o presidente dos EUA.

No já referido texto de outubro de 2025, falei também que o Sr. Hussein Obama foi agraciado com o Nobel da Paz em 2009, menos de 9 meses antes de assumir o seu primeiro mandato de presidente dos EUA, ou seja, um presente de boas-vindas. O Sr. Hussein Obama era um membro que defendia a "agenda". E assim como o já mencionado Leonardo DiCaprio (51 anos) se recusa a ter namoradas com mais de 27 anos e ainda assim é visto como um progressista, o Sr. Obama pode ser um presidente altamente beligerante e ainda assim ser visto como um pacifista. Basta eles serem ativos e bons oradores na defesa das estranhas pautas da "agenda", que as suas ações não importarão muito. É uma lógica do avesso, porque um homem deve ser julgado muito mais pelas suas ações do que pelas suas palavras. Temos um exemplo muito atual por aqui: Lula emite declarações públicas dizendo que seu filho (codinome "Lulinha") deve ser investigado, mas atua freneticamente nos bastidores para boicotar as investigações.

Uma grande parte da geração ocidental atual parece ter perdido o senso comum, algo que dá a toda a pessoa a capacidade de identificar hipócritas, safados e mentirosos. Digo uma grande parte, mas não a maior parte, pois se o mal já tivesse acometido a maior parte não haveria explicação, por exemplo, para a segunda vitória de Trump nas eleições presidenciais americanas. O homem tinha toda a mídia, universidades e organismos internacionais contra ele, e ainda assim saiu vitorioso. É óbvio que a tentativa de implementar a "agenda" é uma forma de matar uma nação por dentro, quer dizer, é uma estratégia gramsciana expandida. Os chineses e russos ficam muito satisfeitos quando percebem que o Ocidente está ruindo por dentro, quando veem que muitos ocidentais já repudiam qualquer senso de nacionalismo, que perdem tempo tentando mudar o vernáculo com palavras estranhas, formam cada vez mais gerações de homens frouxos, entre outros defeitos mais.

Podemos identificar dois grupos de pessoas entre a população ocidental atualmente. O primeiro é formado por indivíduos que não sabem o que está acontecendo; analogicamente, seriam os jovens da Atenas de Sócrates, cheios de doxa, mas que não conseguem sobreviver a poucos minutos de dialética. É a grande maioria, são as marionetes dos donos do poder. O segundo grupo é formado por aqueles que têm plena consciência do que está acontecendo; "coincidentemente", são os donos do poder hoje e analogicamente, os donos do poder na Atenas de Sócrates. São os sofistas que condenaram Sócrates, eram cientes de que não precisavam carregar a verdade para obter vitórias, o verdadeiro poder residia na arte de convencer os outros.

Pisando no acelerador: é hora de dobrar a aposta

Ter poder é uma das condições mais reveladoras sobre o caráter das pessoas, ainda mais para aquele que passa a tê-lo em determinado momento da vida. O poder pode ser tão transformador para aquele que o obtém que o velho livro faz diversos alertas sobre a questão. Um deles é um alerta para os filhos que um dia se tornam mais poderosos que os seus pais: "não despreze seu pai porque te sentes fortes"[1]. No caso do Brasil, as recentes investidas contra as liberdades individuais são provas cabais de que a maioria das pessoas que detém o poder atualmente jamais lutou por sociedade verdadeiramente livre no passado, elas lutaram simplesmente por poder. É importante perceber, no entanto, que a forma de minar a liberdade usando a estratégia gramsciana sempre é maquiada por rótulos quimericamente preventivos: combate ao "extremismo", "discurso de ódio", "antidemocrático", "negacionismo" e segue até perder de vista.

É uma estratégia inteligente, porque esses rótulos funcionam para criar brechas no Estado de Direito. Como disse a ministra Carmen Lúcia, em 2022, naquele que talvez seja um dos votos mais contraditórios e vexatórios da história dessa instituição: "não se pode permitir a censura sob qualquer argumento no Brasil [...] mas eu vejo isso como uma situação excepcionalíssima [...][2]”. Veja, se não houvesse o rótulo que nesse caso foi a tal "situação excepcionalíssima", ela não teria como justificar o voto. O documentário censurado por Carmen Lúcia tratava da facada sofrida pelo ex-presidente e candidato Jair Bolsonaro. Curiosamente a tal juíza não aplicou o mesmo critério aos pedidos que tentavam censurar a propaganda feita por uma escola samba ao presidente Lula no carnaval de 2026, o que é claramente um voto correto, porém, incoerente com o voto de 2022. Há também principalmente no uso de um desses rótulos, o de "extremista", uma estratégia de acusar os outros daquilo que os próprios acusadores são em essência: intolerantes e autoritários. Em uma escala muito pior, Xi Jinping utiliza o rótulo de "extremismo" para justificar o genocídio contra o povo uigur. Quando aplicada ao mero debate público, tal estratégia se revela também muito sagaz e na maioria das vezes é eficaz. Frequentemente o acusado fica tão perturbado de ser acusado de uma coisa que ele não é, e que ele sabe que o acusador é, que ele acaba sendo derrotado por descontrole emocional causado por excesso de indignação.

Me referi há pouco como "recentes" às investidas contra a liberdade no Brasil, simplesmente porque elas estão mais escancaradas do que em qualquer outro momento do período pós-regime militar. No entanto, é importante perceber que o ímpeto dos petistas contra as liberdades individuais remonta ao primeiro mandato de Lula com o seu referendo do desarmamento em 2005. Os petistas se empenharam muito em vencer, mas perderam por ampla margem (apenas 36% dos eleitores responderam "sim"). Contudo, não satisfeitos, os petistas conseguiram por meio de manobras burocráticas implementar tacitamente um desarmamento forçado no Brasil. É muito difícil se segurar para não zombar da pessoa que "pensa" que um governo que deseja armar a população é um governo autoritário, enquanto o outro que, mesmo perdendo um referendo implementa uma estratégia pérfida para desarmar a população, é um governo que não é autoritário.

Uma criança de 12 anos é capaz de intuir que um governo que arma população é um governo libertário, enquanto o que desarma é autoritário. Se a população iraniana fosse armada, a situação atual seria completamente diferente. Os rebeldes líbios conseguiram armas e esse foi o fator determinante para a queda do regime de Gaddafi. Caso não tivessem conseguido, muito provavelmente os ataques americanos contra as forças de Gaddafi não teriam sido suficientes para derrubar o regime. Ou seja, teríamos tido uma situação muito parecida com a do Irã atualmente. Se o povo uigur fosse armado, não estaria sendo vítima de um genocídio, assim como se os cubanos e norte-coreanos fossem armados não estariam padecendo por inanição há décadas.

Deixar o Estado com o monopólio da força é o maior atentado contra a liberdade de qualquer ser humano e o maior convite para um regime autoritário oprimir um povo. E aqui vai mais um fato curioso relacionado ao regime militar brasileiro: mesmo sabendo que as armas podiam cair nas mãos dos opositores do regime (como de fato caíram), a venda de armas no Brasil era liberada até mesmo em lojas de ferragens. A maior parte dos brasileiros tinha pelo menos uma garrucha dentro de casa durante o regime militar. Estranha ditadura essa que corre o risco de sofrer resistência armada dos seus opositores, apenas para garantir um princípio fundamental a todo ser humano: o direito de autodefesa. Esse parece, contudo, um padrão recorrente. Frequentemente são justamente os defensores desse direito que mais sofrem os efeitos colaterais. Trump, por exemplo, já foi vítima de três tentativas de assassinato envolvendo armas de fogo (a última durante a redação desse texto), mesmo assim, continua defendendo o direito.  A família do jovem influenciador americano assassinado Charles Kirk (1993-2025), parece ter todos os motivos do mundo para se opor ao direito a armas de fogo, no entanto, permanece fiel a essa liberdade.

No Brasil, os petistas inventaram a tal da "comprovação de efetiva necessidade" para o porte de armas e, mais recentemente, também para a posse (porte dá direito ao indivíduo de transitar com a arma for a da sua propriedade, enquanto a posse é restrita apenas ao interior da propriedade). Pelo andar da carruagem, parece que todo cidadão brasileiro que não está à margem da lei, e que tenha a sanidade mental comprovada, tem alguma efetiva necessidade de ter ao menos a posse de arma na sua residência. Isso não apenas pela situação da criminalidade no Brasil, mas também por haver indícios de que o nosso país pode enveredar para algum regime estranho num futuro próximo.

https://www.poder360.com.br/poder-governo/lula-defende-guarda-nacional-para-pronta-intervencao/

GUARDA NACIONAL? Não tem mais véu. Lula assumiu pela primeira vez a presidência em 2003 e antes mesmo de tentar desamar a população com o referendo de 2005, ele já havia tirado do bolso a tal da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP), criada em 2004 via DECRETO presidencial (Decreto nº 5.289). Se você não ficou intrigado com isso, é porque não entendeu: ele criou uma força armada paralela subordinada diretamente ao governo federal via decreto. Pois é, naquela época o Congresso estava anestesiado com as mesadas do "Mensalão". Há algum tempo, militares do EB me contaram que havia uma zombaria sobre o mecanismo de ingresso na tal Força Nacional. Diziam que para entrar na FNSP era preciso ter um "QI alto", mas aqui o QI não tinha nada a ver com conhecido "quociente de inteligência", era na verdade o acrônimo de "quem indica". Eram policiais militares e civis indicados pelos seus superiores, que indicavam a outros superiores e, no final, acabavam sendo indicações políticas.

Atualmente o efetivo da FNSP é de cerca de 10 mil homens que passam a maior parte do ano em ócio profundo de dar inveja a Mário de Andrade e seu Macunaíma (1928), custando ainda uma fortuna aos cofres públicos. Ao fim e ao cabo, Lula falhou em seu intento, pois errou em um ponto fundamental. Mesmo sendo indicações que no final da cadeia acabam sendo políticas, a maior parte dos indicados são policiais militares dos diversos estados federativos do Brasil. E os militares, sejam eles PM ou das FA, simplesmente não gostam de marginais, o que naturalmente os leva a não gostarem de petistas (digamos 8 em cada 10). Não é à toa que vira e mexe o PT levanta a bandeira da "desmilitarização das PMs", porque sabe que, enquanto as PMs forem militarizadas, elas serão verdadeiras pedras nos sapatos. Talvez seja por isso que agora Lula quer a sua guarda nacional. Oficialmente Lula arguiu em defesa da criação da tal guarda da seguinte forma:

https://www.poder360.com.br/poder-governo/lula-defende-guarda-nacional-para-pronta-intervencao/

Tal justificativa chega a ser cômica, vindo de um presidente com um histórico de declarações polêmicas sobre a criminalidade, por exemplo, quando disse em 2019: “Não posso ver mais jovem de 14 ou 15 anos assaltando e sendo violentado, assassinado pela polícia, às vezes inocente ou às vezes porque roubou um celular”.[3] Além disso, a ADPF 635, que será comentada mais adiante, tem forte apoio do PT, o que torna tal justificativa para a criação da guarda uma contradição perfeita. Os indícios apontam para uma outra direção: Lula parece desejar um braço armado fiel ao PT.

As guardas nacionais são invenções dos regimes autoritários, são instrumentos muito antigos. Os imperadores romanos tinham a "Guarda Pretoriana" (no filme Gladiador há alguma tentativa de mostrar isso), Hitler tinha a Schutzstaffel ("SS"), Putin tem a Rosgvardyia, Xi Jinping tem a "Polícia Armada do Povo" (PAP), a família Castro tem a "Polícia Nacional Revolucionária" (PNR), Chavez e Maduro tinham a "Milicia Nacional Bolivariana da Venezuela" e o regime iraniano tem a "Guarda Revolucionária Iraniana (GRI). Diferentemente das forças armadas que juram defender a pátria, as guardas nacionais são constituídas com um único propósito: defender o regime. Os ditadores se depararam muitas vezes ao longo da história com uma enorme dificuldade de cooptar as suas forças armadas, a solução encontrada então foi criar forças paralelas e conceder altos privilégios aos seus membros. Dessa forma, a fidelidade dessa força é exclusivamente com o regime que a mantém, e não com o país.

Um exemplo pertinente ao contexto atual é o do Irã. Após a revolução de 1979, o regime dos aiatolás esbarrou exatamente em um problema desse tipo: as forças armadas iranianas não eram subservientes na medida que o regime precisava, eis que surge então a Guarda Revolucionária Iraniana — o braço armado do regime. Os expurgos que os regimes autoritários fazem nas forças armadas são frequentes e corroboram com a ideia da dificuldade de tornar o exército, a marinha e a aeronáutica marionetes dos ditadores. Xi Jinping fez recentemente uma verdadeira decapitação no alto comando das forças armadas. Putin também deu "chá de sumiço" há pouco tempo em vários dos seus generais de alta patente nos momentos mais críticos da invasão da Ucrânia.

Eu me pergunto se não sobrou ao menos um general "inteiro" nesse país para responder sobre essa ideia da guarda nacional do pseudoditador. Tenho a impressão de que viraram todos eunucos. Se essa ideia for levada a efeito, estaríamos com o combo perfeito para uma futura escravidão: população desarmada + guarda nacional fiel a um regime. Qual país democrático tem guarda nacional? Será que a Alemanha, Itália, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Austrália etc. possuem guardas nacionais? Não. Nenhum desses países. Há uma exceção: os EUA. No entanto, aquele que quiser comparar a ideia de guarda nacional dos petistas com a americana é um completo beócio. Os EUA vivem em uma estrutura federalista de dar inveja ao resto do mundo (eu gostaria muito que São Paulo tivesse pelo menos a metade da autonomia que qualquer estado estadunidense tem). A Guarda Nacional dos EUA com seu efetivo de quase 500 mil integrantes é fracionada, com cada unidade comandada pelo governador do respectivo estado, podendo ser, em caráter excepcional, requisitada pelo governo federal. Além disso, os EUA têm a população mais armada do planeta, são quase 400 milhões de armas nas mãos dos civis. É especialmente por esse fator que a população americana nunca correrá o risco — se essa condição for mantida — de algum dia ser oprimida por algum ditadorzinho. Num eventual surgimento de uma versão de Khamenei na liderança dos EUA em algum momento do futuro, uma senhora texana comum no auge dos seus 70 anos teria a possibilidade de "dar boas-vindas" aos compinchas do assassino com nada menos que um Ruger .338 Lapua.

O que é mais idiossincrático para nós, que vivemos no Brasil atual, é que nem podemos falar em monopólio da força estatal, pois há claramente dois atores que detêm esse poder: o Estado e o crime organizado. É uma situação profundamente perturbadora. Ora, se o Estado chama para si a exclusividade de poder exercer a violência, mas se revela incapaz de manter essa exclusividade — compartilhando o poder das armas justamente com a parcela da população que está à margem da lei —, o mínimo que poderíamos esperar é que o Estado ajudasse a parcela da população que está dentro da lei a ter o direito de autodefesa. Mas não. Longe disso. Na verdade, o que vemos nos últimos tempos é diametralmente o oposto disso. Por exemplo, por meio da ADPF 635, o STF vem atrapalhando desde 2020 as ações policiais nas zonas dominadas pelo crime organizado, criando com isso verdadeiros bolsões territoriais de domínio dos criminosos. Além disso, o pseudoditador endureceu ainda mais via DECRETO o comércio de armas para a população que cumpre as leis. O Brasil atual é realmente uma coisa muito estranha. O pior é que quem mais sofre é a população mais desfavorecida financeiramente, uma vez que os mais endinheirados vivem em condomínios com fortes aparatos de segurança e dirigem carros blindados (o Brasil possui a maior frota de veículos blindados de passeio do mundo).

Reforço o que já disse antes, que conceder o monopólio da força para o Estado é um convite para a escravidão. O teórico alemão Max Weber (1864-1920) parece ter acertado em muitas questões e até mesmo profetizado outras, por exemplo, que o comunismo russo acabaria engolfado por burocratas corruptos. Entretanto, ao defender o monopólio do poder ao Estado, Weber parece ter flertado com a utopia e subestimado os eventuais efeitos colaterais dessa concessão. O Estado não pode ser temido por pessoas que estão dentro da lei. Caso seja, é um sintoma de que esse povo não é verdadeiramente livre. Uma das principais queixas contra o regime militar brasileiro era a falta da liberdade (especialmente a de expressão), mas estamos a poucos passos de voltarmos a uma situação análoga, só que dessa vez com algumas diferenças: (1) a liberdade de expressão está sendo suprimida de forma tácita (sob a rubrica de combater os quiméricos "extremismos"); (2) a população cumpridora da lei está desarmada; (3) o crime organizado possui arsenal de guerra.

Reparem nas diferenças com outras democracias, principalmente no que tange à liberdade de expressão e à aplicação das leis. Poucos meses atrás, Donald Trump foi visitar uma fábrica da Ford e ouviu uma ofensa verbal: "defensor de pedófilo" (aparentemente o pedófilo seria Epstein) e, por mais que a ofensa seja lisérgica, Trump teve que engolir essa. O trabalhador não teve que responder a nenhum processo, não foi incluído em nenhuma aberração da Suprema Corte americana, por exemplo, algum inquérito das Fake News, que tem como única finalidade perseguir opositores. É a Primeira Emenda americana em ação: a verdadeira liberdade de expressão. Até mesmo na França atual — que está muito longe de ser o melhor modelo de Estado libertário — é possível encontrar condições muito diferentes do regime brasileiro. Pouco tempo atrás, um francês comum ultrapassou os limites da lei e deu um tapa na cara do presidente Emmanuel Macron. O agressor ficou 4 meses preso, saiu, e disse publicamente que não se arrepende. Alguém consegue conceber qual seria o fim de um brasileiro que fizesse o mesmo com o Lula? Não é muito difícil. Provavelmente ele teria um fim parecido com alguém que desse um tapa na cara do general Médici em 1972.

Curiosamente, na atualidade, um mero cidadão comum tem medo de proferir ofensas verbais ao presidente em exercício, pois vê indícios de que uma parte da Polícia Federal já vem operando como uma espécie de Gestapo. E a última instância do judiciário virou um braço de dissuasão do PT. Cidadãos comuns tiveram suas vidas viradas do avesso recentemente por ofensas verbais ao pseudoditador e por ofenderem verbalmente os membros do STF.

Entretanto, parece que estamos diante de uma elevação SEM PRECEDENTES no grau de opressão desses tentáculos de poder do regime brasileiro. Não são mais apenas os meros cidadãos comuns, nem mais os adversários políticos estigmatizados (bolsonaristas) que são vítimas do que parece ser um Volksgerichtshof (o tribunal da Alemanha Nazista) tupiniquim. Recentemente, o senador Alessandro Vieira (MDB-Sergipe), um ex-policial civil e ferrenho opositor de Jair Bolsonaro, apresentou o relatório final da CPI do Crime Organizado, da qual foi relator. O relatório pediu o indiciamento de Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, além do PGR, Paulo Gonet, por crimes de responsabilidade.

https://www.poder360.com.br/poder-congresso/crime-de-responsabilidade-do-stf-esta-comprovado-diz-relator-da-cpi/

Vieira parece ter sido inteiramente técnico e imparcial no decorrer da investigação. Quando questionado sobre o motivo de não pedir o indiciamento por crime de corrupção, Vieira respondeu:

https://www.poder360.com.br/poder-congresso/crime-de-responsabilidade-do-stf-esta-comprovado-diz-relator-da-cpi/

 

Eis que surge prontamente a resposta do régime:

https://www.poder360.com.br/poder-justica/gilmar-mendes-aciona-pgr-para-investigar-senador-alessandro-vieira/

Uma patologia assola brasileiros

Conversei há pouco tempo com uma pessoa que vem assistindo a GloboNews muitas horas por dia nos últimos anos. Coincidentemente, poucos dias depois, conversei com um amigo que conhece outra pessoa que vive uma rotina semelhante. O resultado foi que, apesar de não se conhecerem, as duas pessoas estão dizendo loucuras quase idênticas. Nos dois casos também há convergência na janela de tempo da evolução da patologia que podemos chamar de "Demência da GloboNews", eles se tornaram mentalmente afetados nos últimos 5 ou 6 anos (pós-pandemia). De várias besteiras que me foram ditas por esse falante, me recordo perfeitamente de pelo menos três:

1)        O presidente Donald Trump iniciou os ataques ao Irã para favorecer a Rússia, pois aumentou o preço do petróleo; 

2) Trump assaltou na Venezuela;

3) A China, diga-se, o Partido Comunista Chinês, "não mexe" com ninguém (outros povos);

Antes de analisar cada um desses absurdos, é possível identificar instantaneamente que há uma patente vitória dos inimigos por trás dessa ladainha toda. No passado mais distante, poderíamos falar que há aí um "antiamericanismo", mas no passado mais recente temos que nos limitar a um "antitrumpismo". Mas esse é um assunto para outra ocasião. Vejamos se é possível salvar alguma coisa das três estranhezas que foram ditas.

1) "O presidente Donald Trump iniciou os ataques ao Irã para favorecer a Rússia, pois aumentou o preço do petróleo"

Um sofrido agricultor do Agreste, que não tem tempo de acompanhar nenhum meio jornalístico, desconfiaria da asneira (1) por um simples mecanismo silogístico (se fosse concedido a ele o mínimo de informações sobre a questão). Em primeiro lugar, a alta do petróleo causa alta nos preços dos combustíveis e a alta nos preços dos combustíveis gera inflação em cascata. Não há nada que tire mais votos de um político do que um repique inflacionário, tanto é verdade que a popularidade de Trump despencou no último mês. Portanto, por que Trump estaria supostamente ajudando a Rússia e destruindo a sua popularidade? Afinal, ele precisa muito da sua popularidade para fazer um sucessor. Na ausência de alguma hipótese com poder explicativo para isso, não faz o menor sentido pensar uma coisa dessa. Em segundo lugar, é amplamente sabido que o Irã, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, foi um dos poucos países que conseguiu fornecer alguma vantagem à Rússia, vendendo milhares dos seus letais drones kamikaze Shahed 136. Por um passo simples de inferência, surge a questão: como é que atacar as instalações iranianas que fabricam os drones que são fornecidos para a Rússia, pode de alguma forma favorecer a Rússia? É uma ideia sem pé nem cabeça. Por último, é importante esclarecer que a retirada da sanção do petróleo russo é temporária e limitada por iniciativa dos EUA. A retirada da sanção foi concedida ao petróleo que já estava embarcado e era válida até 11 de abril, recentemente foi prorrogada até 16 de maio. Além disso, após o retorno das sanções, o maior comprador de petróleo russo continuará sendo a China, e os chineses por saberem que a Rússia não tem para quem vender em função das sanções dos EUA, exigem descontos descomunais. Portanto, a alta do petróleo para um vendedor que está enjaulado em um monopsônio, não tem o potencial de resolver definitivamente a situação desse exportador.

2) "Trump assaltou a Venezuela"

A "ideia" (2) é o inverso da realidade. A história verdadeira é que a Venezuela roubou e os EUA foram retomar o que era deles. As empresas americanas tiveram ativos confiscados da ordem de 30 bilhões de dólares com a nacionalização promovida pelo então presidente Hugo Chávez em 2007. Para quem duvida da legalidade desses valores, saiba que os organismos internacionais possuem câmeras de arbitragem para julgar casos de confisco como os que ocorreram na Venezuela. E mesmo que esses organismos estejam cada vez mais claramente vendidos, quando há casos muito esdrúxulos, eles tendem a mostrar alguma imparcialidade (diferentemente dos papas). Em 2019, por exemplo, um tribunal arbitral do Centro Internacional para Resolução de Disputas sobre Investimentos (ICSID em inglês), condenou a Venezuela a pagar uma indenização de 8,7 bilhões de dólares petrolífera norte-americana ConocoPhillips pelo roubo perpetrado em 2007.

https://www.conocophillips.com/news-media/story/international-arbitration-tribunal-orders-venezuela-to-pay-conocophillips-8-7-billion-for-unlawful-expropriation-of-company-s-oil-investments/

Devido processo legal concedido e dívida avalizada, só faltava um cobrador para ir receber. Pode causar um pouco de estranheza por se tratar de países, mas é corriqueiro entre pessoas que, após um processo de cobrança legal, o credor que recebeu um título de dívida frustrado, depois de passar anos tentando receber do devedor, acabe optando por vias "alternativas". Pois bem, os EUA utilizaram uma via alternativa para cobrar um devedor (nesse caso, um ladrão descarado). De brinde, ainda levaram para o xilindró um narcotraficante internacional que inundava os EUA com drogas, ameaçava roubar mais ativos americanos com as constantes bravatas sobre anexar a região de Essequibo da Guiana, e que também já não era mais nada no seu país (a não ser narcotraficante), sendo reconhecido como presidente apenas por aquele mesmo grupo de sempre, composto por países "altamente democráticos" (China, Rússia, Irã, Cuba, Nicarágua etc.). Além disso, sem alarde, para a esperança dos venezuelanos, mais de 670 presos políticos já foram libertados (até março) pelo governo de Delcy Rodríguez desde a captura de Maduro[1]. Somente nós, os otários, aceitamos que nossos governantes façam estranhos acordos com a Venezuela depois de nossos ativos serem roubados pelo regime.

 

 https://veja.abril.com.br/economia/petrobras-abre-mao-de-cobrar-divida-da-venezuela/

1) "A China, diga-se, o Partido Comunista Chinês, 'não mexe' com ninguém (outros povos)"

O sujeito que solta uma verborreia do tipo (3) demonstra um profundo desconhecimento sobre a questão. É uma espécie de tentativa de classificar regimes comunistas em duas categorias: (1) os que só oprimem o próprio povo; (2) os que oprimem o próprio povo e também outros povos. Pelo que eu entendi, o falante quis dizer que a China faria parte do primeiro e a Rússia faria parte do segundo. Apenas o genocídio dos uigures já seria suficiente para refutar essa ideia absurda, pois o povo uigur é de origem turcomena, portanto, não é possível aplicar o argumento de "chineses oprimindo os próprios chineses". Para além disso, um erro elementar é não notar que como diz o velho livro "há aqueles que se abstém de pecar por falta de meios"[1]. Explico: se olhamos pelo retrovisor, veremos que o período em que a Rússia oprimiu mais os outros povos foi aquele no qual ela tinha muito poder, no auge da Rússia Soviética. Depois do colapso da União Soviética, os russos passaram um longo inverno quietos (apenas fazendo o de praxe, por exemplo, inundando regimes insurgentes sanguinários, especialmente no continente africano, com as suas famosas AK-47).

Os russos só voltaram realmente a uma atividade mais ostensiva depois de duas décadas (2014, invasão da Crimeia), após os europeus passarem todo esse tempo ajudando a reerguer a sua debilitada economia pós-soviética (curiosamente ajudando a reerguer o país que é o motivo pelo qual eles têm uma aliança militar defensiva). Pois bem, após enriquecer o regime russo comprando todo gás natural que podia ser comprado, os europeus foram "pegos de surpresa" por uma nova opressão no seu continente (não faltaram alertas dos ucranianos ao resto da Europa). Que fique claro: se um regime comunista não está oprimindo outros povos, é por uma simples questão de falta de oportunidade.

Isso vale igualmente bem para o regime chinês. A ascensão da China como potência econômica se consolidou no início dos anos 2000 e a consolidação como potência militar vem ocorrendo nos últimos 15 anos. Um breve relato da Terceira Crise do Estreito de Taiwan (1995-1996) deve clarear o problema que um regime comunista enfrenta ao tentar projetar poder fora do seu curral quando ainda não tem capacidade militar suficiente para lidar com a "polícia do mundo". O gatilho da crise foi uma visita do presidente de Taiwan aos EUA em 1995. O então presidente taiwanês Lee Teng-hui (1923-2020) aceitou um convite para discursar na sua universidade de formação (Universidade Cornell) com o título da palestra sendo "Experiência de Democratização de Taiwan". Bom, não é de se estranhar que isso não tenha agradado nem um pouco o Partido Comunista Chinês.

O regime comunista respondeu rapidamente com uma série de exercícios militares no entorno de Taiwan disparando uma saraivada de misseis, com alguns caindo a apenas 50 km da costa de Taiwan. O patético Bill Clinton, presidente dos EUA na época, talvez naquele que seja o seu único trunfo em política externa durante os seus dois mandatos, enviou para a região dois porta-aviões, o USS Independence e o USS Nimitz ambos acompanhados de seus respectivos grupos de ataque. Em 11 de março de 1996, o USS Nimitz "deu um passeio" pelo Estreito de Taiwan, um feito que é visto pelos comunistas chineses como a maior vergonha de política externa que o regime passou no passado recente. Para aumentar ainda mais a ignomínia, tempos depois foi revelado que um general de alto escalão do Exército Chinês (Liu Liankun) havia avisado previamente as autoridades taiwanesas — preocupado em prevenir uma guerra — que os mísseis lançados no entorno de Taiwan não carregavam explosivos. Essa informação rendeu nada menos que a pena de morte para Liu Liankun em 1999.

Na época do ocorrido a marinha chinesa não possuía sequer um único porta-aviões, enquanto os EUA operavam 12. O primeiro porta-aviões chines foi o Liaoning, de fabricação soviética. Esse porta-aviões foi adquirido pela Ucrânia no início da década de 1990 e depois vendido para uma companhia turística chinesa em 2002, que pretendia adaptá-lo para ser um super cassino. Obviamente que essa ideia nunca foi levada adiante. Em 2012, a marinha chinesa colocou o Liaoning em serviço (depois de estudar sua engenharia por 10 anos). Desde então os chineses já lançaram ao mar mais dois porta-aviões (Shandong e o Fujian), só que estes foram fabricados pelos próprios chineses. Mesmo o Fujian, colocado em serviço no ano passado, apesar de ser muito moderno em vários aspectos, ainda não é movido a propulsão nuclear — o que representa uma enorme desvantagem quando se pensa em projetar poder em áreas distantes (em função da necessidade de reabastecimento). Os 11 porta-aviões operados pelos EUA atualmente são de propulsão nuclear, mas os chineses já estão construindo o seu primeiro desse tipo a toque de caixa. 

De todo modo, mesmo com essas desvantagens em relação a maior potência militar do mundo, os chineses já estão — ao contrário do que disse o falante — "mexendo" com outros povos. O direito internacional convencionou em 1982, que todo país que possui acesso ao mar é proprietário de uma faixa de 22 km das suas águas costeiras. Ou seja, essa área marítima é considerada uma extensão do território do país, o que significa que se um navio estrangeiro invadir esse perímetro, ele pode ser abatido da mesma forma que carro de combate pode ser abatido ao cruzar a fronteira terrestre de outro país. Além disso, foi convencido que os países podem requerer uma zona econômica exclusiva muito superior aos 22 km, uma faixa de 370 km. O Brasil, por exemplo, requereu e tem direito econômico exclusivo por toda essa extensão costeira. Pois bem, os chineses entendem que essas regras não valem para eles. Eles dizem que todo o chamado "Mar do Sul da China" pertence a eles, uma área de 3,5 milhões de km², que ultrapassa absurdamente os 370 km da sua costa e viola as zonas econômicas exclusivas de diversos outros países.

Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e a disputa ASEAN x China  – MenteMundo

Fonte: CNN.

Outra vez diante de uma aberração jurídica indefensável, em 2016, a corte internacional de arbitragem já havia decidido contrariamente à reivindicação chinesa. Olhando para o mapa acima, não é necessário ser nenhum especialista em direito internacional para ver que o que a China almeja é o verdadeiro expansionismo territorial. O que o regime chinês fez com a decisão do tribunal? Utilizou a decisão como papel higiênico, exatamente como o regime venezuelano fez com a condenação de indenizar a ConocoPhillips. Para se ter uma ideia, a distância entre a China continental e o ponto mais distante que o Partido Comunista Chinês quer confiscar (na zona econômica de Brunei) é de cerca de 1.600 km, ou seja, é 4x a distância que o direito internacional estabeleceu (370 km). A abordagem exígua da mídia ocidental sobre o assunto pode levar os ingênuos a pensarem que o regime chinês está passivamente recorrendo da decisão desfavorável nos tribunais internacionais, mas a verdade passa muito longe disso. A China vem construindo uma porção de ilha artificiais nesse território marítimo, além disso abalroa e ataca navios filipinos (com fortes canhões de água) dentro das áreas territoriais das Filipinas. Se as Filipinas não tivessem um tratado de defesa com os EUA, muto provavelmente esses canhões de água já teriam sido trocados por outros.

Abalroamento e ataques com canhões de água

Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=jdhP4EhJkeA

Fonte: Swissinfo.  Disponível em: https://www.swissinfo.ch/por/colis%C3%A3o-no-mar-da-china-meridional-entre-barco-do-governo-filipino-e-guarda-costeira-chinesa/88465251

Navios da China cercam, batem de propósito e disparam canhões d'água contra  barco das Filipinas – Noticias R7

Fonte: Portal R7. Disponível em: https://noticias.r7.com/internacional/navios-da-china-cercam-batem-de-proposito-e-disparam-canhoes-dagua-contra-barco-das-filipinas-30042024/ 

Ilhas artificiais construídas no "Mar do Sul da China"

China transformou ilhas artificiais em bases militares - CNN Portugal

Fonte CNN Portugal: Disponível em: https://cnnportugal.iol.pt/mar-do-sul-da-china/eua/china-transformou-ilhas-artificiais-em-bases-militares/20220321/623801d90cf21a10a426629b

Entenda o conflito no Mar do Sul da China e por que ele aumenta a tensão  com as Filipinas | CNN Brasil

Fonte: CNN Brasil. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-conflito-no-mar-do-sul-da-china-e-por-que-ele-aumenta-a-tensao-com-as-filipinas/

 

O problema é só deles?

Parece ser muito provável que, devido à capacidade de lavagem cerebral que a mídia vem conseguindo realizar em muitos ocidentais, quando a China tentar tomar Taiwan, muitos acharão que isso é um "problema deles". Não tenho a menor dúvida que essa seria uma resposta da pessoa com quem conversei recentemente. Se for aplicado esse estranho critério, teríamos que estendê-lo também a outras querelas territoriais. A pessoa afetada pela "Demência da Globonews" parecia ser um ávido defensor da Ucrânia, inclusive afirmando que os EUA precisam doar armas ao invés de vender para os ucranianos. Ocorre que ao dizer que "isso é um problema deles" para os taiwaneses com os chineses, o falante teria que dizer, a fortiori, que "isso é um problema deles" para os ucranianos com os russos.

A Ucrânia foi um território dominado pela Rússia há menos tempo do que Taiwan foi dominado pela China: até 1991 para o caso da Ucrânia versus 1949 para o caso de Taiwan. Ou seja, se se quiser falar de uma "usucapião internacional", os taiwaneses teriam uma vantagem de mais de 40 anos se comparados aos ucranianos. Além disso, ainda há um agravante: a tal "Rússia de Kiev" que remonta ao século IX. Putin tem a história antiga ao seu lado para arguir (ainda que de forma controversa) que o berço da civilização russa é justamente a região onde hoje é Ucrânia, um argumento que daria muita inveja aos chineses na tentativa de anexação de Taiwan. Portanto, não haveria o menor sentido em mandar uma "banana" para os pobres taiwaneses se não fosse enviada a mesma "banana" para os ucranianos. Precisamos de um mínimo de coerência. Em ambos os casos, os agredidos devem ser ajudados contra o que é, aqui sim, um verdadeiro imperialismo dos regimes autoritários e expansionistas dos comunistas, não o lisérgico imperialismo americano do século XXI que só existe na cabeça dos aloprados.


[1] Eclesiástico 20:23.


[1] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/venezuela-libertou-673-presos-politicos-desde-a-prisao-de-maduro-diz-ong/


[1] Eclesiástico 3:15

[2] https://www.cnnbrasil.com.br/politica/decisao-que-adiou-documentario-pode-ser-veneno-ou-remedio-diz-carmen-lucia/

[3] https://www.poder360.com.br/poder-governo/volta-a-circular-video-em-que-lula-fala-de-roubo-de-celular/


[1] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2011/10/20/em-pronunciamento-obama-diz-que-morte-de-gaddafi-encerra-capitulo-doloroso-para-a-libia.htm

[2] https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/cameron-diz-que-e-preciso-recordar-as-vitimas-de-kadafi-9cxqp93l30jh53qwgj0l61d8u/

[3] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/10/morte-de-kadhafi-a-ue-sauda-o-fim-de-uma-era-de-despotismo.html

[4] https://time.com/7357635/more-than-30000-killed-in-iran-say-senior-officials/