Procura-se: aprovação

Procura-se: aprovação
Foto por Chen YiChun / Unsplash

Estamos diante de um fenômeno anômalo. A última PNAD divulgada pelo IBGE indicou que a taxa de desemprego no Brasil encerrou dezembro de 2025 em 5,1%. Enquanto isso, o principal índice de inflação, o IPCA, registrou uma alta de 4,26% no acumulado dos 12 meses do ano passado. Esses dois fatores (emprego e inflação) são indiscutivelmente os principais componentes que influenciam o índice de aprovação de um governo. Os números apresentados são, para os padrões brasileiros, extraordinários. Para se ter uma ideia, a 5,1% é a menor taxa de desocupação da série histórica iniciada em 2012 (quando se iniciou a série atual com mudança metodológica). Na verdade, essa taxa pode ser considerada como se a economia brasileira estivesse operando no pleno emprego ou muito próxima disso (pelos padrões brasileiros). A qualidade do índice de inflação também não fica atrás, embora o mérito desta não seja do poder executivo, mas sim do Bacen. Desde 1995, por exemplo, o IPCA só foi menor que 4,26% em quatro ocasiões: 1998, 2006, 2017 e 2018[1].

Esses indicadores econômicos seriam fatores garantidores de aprovação para qualquer "poste" político, entretanto, muito misteriosamente, parece que tais indicadores não estão garantindo bons índices de aprovação justamente para aquele que é visto por muitos como um dos maiores líderes políticos da história do Brasil. Uma pesquisa de dezembro de 2025 mostrou que o governo Lula 3 tinha apenas 48% de aprovação[2]. Para efeito de comparação, em dezembro de 2009, a aprovação do governo Lula 2 era de 72%[3], porém, os dados de inflação e do mercado de trabalho eram qualitativamente inferiores aos atuais: a taxa de desemprego era de 6,8%, enquanto o IPCA caminhava para fechar aquele ano em 4,31%, uma taxa levemente superior à de 2025.

Quando focalizamos na disputa eleitoral daquele ano, vemos que, em dezembro de 2009, as pesquisas de opinião para a eleição presidencial indicavam que Dilma Rousseff tinha uma desvantagem de 14 pontos percentuais em relação ao primeiro candidato, o ex-senador José Serra. Quer dizer, Lula tinha um governo com aprovação de 72% e sua candidata estava tomando uma surra nas pesquisas. A resposta de bolso para esse caso é afirmar que a transferência de votos de um líder para o seu poste é mais vagarosa e só aumenta a velocidade em meses mais próximos do pleito eleitoral. De fato, é razoável sustentar isso com base em dados históricos. No caso de 2010, por exemplo, Dilma permaneceu em desvantagem significativa até abril, quando o Datafolha indicou uma diferença de 11 pontos em relação ao primeiro colocado. No entanto, já no mês seguinte, o Datafolha indicou empate técnico. Nos meses posteriores, Dilma assumiu a liderança nas pesquisas e foi ampliando a sua margem em relação a Serra, chegando ao final de setembro com uma vantagem de 18 pontos.

Um ponto curioso é que, ao mesmo tempo que a sucessora de Lula ia crescendo nas pesquisas, Lula também foi aumentando a aprovação do seu governo durante o ano de 2010. Os 72% em dezembro de 2009 subiram a impressionantes 82% no mês anterior ao pleito eleitoral[4]. Em 2026, contudo, ao menos no primeiro mês do ano, as pesquisas indicam uma estagnação da aprovação. Duas questões parecem clamar por respostas aqui: [1] isso se manterá ou haverá um aumento da aprovação semelhante ao que ocorreu em 2010? [2] O que explica a baixa aprovação do governo mesmo ele estando com os dois principais componentes de popularidade melhores do que os de 2009?

A resposta para [1] é que é improvável Lula não conseguir elevar a sua aprovação até a eleição deste ano. Os que pensam que ele não crescerá nas pesquisas ignoram o poder que a máquina pública fornecerá ao maior maestro do populismo do Brasil nas últimas décadas. Certamente haverá uma avalanche de promessas de hipertrofiamento de programas sociais. O Bolsa Família, que hoje tem um valor mínimo de R$ 600 e valor médio que beira os R$ 700, provavelmente terá seu valor mínimo prometido para 2027 para cerca de R$ 800 durante a corrida eleitoral, o que provavelmente resultará em um valor médio superior a R$ 900 em 2027. É importante lembrar também que a isenção do IR até R$ 5.000, que favorecerá cerca de 16 milhões de contribuintes, só começará a ser percebida por parte desses beneficiados agora no mês de fevereiro, para aqueles que sofreriam retenção de IR na fonte sobre o salário de janeiro e que a partir do próximo mês não sofrerão mais. E a outra parte dos beneficiados perceberá um alívio financeiro nas declarações de IR a partir do mês de março até o fim de maio. Lula é um encantador de serpentes, e pior, um encantador com uma flauta turbinada. Se ele estiver em condições físicas e mentais plenas durante a corrida eleitoral, é um enorme erro de cálculo achar que ele será derrotado com base nas pesquisas eleitorais atuais de simulações de segundo turno. A frase é velha, mas é válida: segundo turno é outra eleição.

Passemos logo então à questão [2], isto é, o que pode explicar a baixa aprovação do governo mesmo com a inflação e o mercado de trabalho excepcionais. Trata-se de um fenômeno verdadeiramente enigmático e não podemos fazer muito além de especular algumas possíveis causas. O agravante é que vimos que Lula teve uma aprovação muito maior no passado com os indicadores piores que os atuais. Nesse sentido, o fenômeno é tão estranho que a etiologia tende a indicar causas também estranhas. Uma das hipóteses é a "estafa", isto é, ao final de 2026, dos 26 anos deste século, o país terá colecionado pouco mais de 8 anos livre do PT. O defensor dessa hipótese vai dizer que, pelo fato de o Brasil ter sido governado pelo partido vermelho por quase dois terços do nosso século, há uma espécie de fadiga natural na população. É uma hipótese que intuitivamente parece fazer sentido, entretanto, ela enfrenta algumas dificuldades. A principal delas é que, embora a existência de alguma estafa possa ser verdadeira, é muito difícil crer que há uma estafa generalizada. Isso porque quem tem mais condições de ficar enjoado de um governo por mera repetição de um partido (um motivo mais supérfluo) não é o grosso da população brasileira (lembrando que cerca de 60% da pirâmide vive com uma renda de até 2 salários mínimos). Portanto, a maior parte da população é afetada pelo trabalho e pelo supermercado. Se não faltar emprego (seja formal ou informal) e se os preços dos alimentos estiverem ajudando a "encher o carrinho" — coisas que o atual governo pode reivindicar —, não é razoável pensar que a fadiga pode ser um fator decisivo para a maior parte desse eleitorado. Essa hipótese fica ainda mais enfraquecida quando inserimos um dado adicional, que é a pesquisa de segundo turno indicando que Lula perde para um Bolsonaro, ou seja, não se trata propriamente de um elemento político novo. Seria então uma troca de um governo muito fadigado por outro pouco fadigado? É algo estranho. Portanto, por esses dois fatores, a hipótese da estafa generalizada parece improvável.

Uma outra hipótese para explicar a fatia faltante entre os 72% de aprovação de Lula em dezembro de 2009 e os 48% em dezembro de 2025 pode estar relacionada com a enorme parcela de empreendedores no Brasil (cerca de 47 milhões de pessoas[5]). É essa hipótese que me parece ser a mais provável, pois ela é a mais simples (e simplicidade é um critério probabilístico). É uma constatação de um fato: o Brasil é uma masmorra para o empreendedor. Em 2009, muitas das condições adversas que o empreendedor brasileiro enfrenta hoje ainda estavam em fase de semeadura ou o que já havia sido plantado ainda não havia virado árvore com raízes profundas. A população só conseguiu ver a "Trevamata" do lulopetismo em 2015/2016. Graças a Michel Temer, um pouco do veneno pode ser removido com a reforma trabalhista e com a PEC do Teto de Gastos, mas sabemos que isso durou pouco (o STF composto por maioria indicada pelo partido vermelho desfigurou a Reforma Trabalhista em 2021 e os petistas desfiguraram o teto de gastos com a volta ao poder em 2023). Sem mais delongas, a hipótese pressupõe que a parte faltante de aprovação do Lula pode vir dos 47 milhões de empreendedores que assinam as carteiras de trabalho de cerca de 39 milhões de trabalhadores e empregam outros 14 milhões de maneira informal[6]. O dono da padaria, do boteco, da barbearia, da oficina mecânica etc. que não havia sentido ainda os efeitos do petismo em 2009 (pela simples falta de tempo), agora sente angustiado. É uma hipótese simples e plausível. O Brasil caminha para virar um país de oligarcas, onde as condições para os que já são grandes são muito boas, mas para quem está começando um negócio o ambiente é hostil. Isso não é mera especulação. É possível constatar algo nesse sentido, por exemplo, ao analisar os balanços das empresas de capital aberto, especialmente as que compõem o Ibovespa, sendo fácil encontrar empréstimos do BNDES com taxas de 4 ou 5% ao ano concedidos para algumas das maiores empresas do Brasil. Por que cargas d'água, uma empresa que já atingiu o ápice do sucesso precisa desse crédito subsidiado? Não precisa. Quem precisa são empreendedores que estão iniciando um negócio, mas eles não têm o mesmo nível de "acesso" que os executivos das grandes empresas têm no BNDES. Ou seja, quem é amigo do rei se dá bem.

Uma terceira hipótese para explicar a baixa aprovação do governo pode ser chamada de “conspiracionista”, mas dado o acúmulo de evidências, não podemos descartá-la, independentemente da alcunha que ela possa receber. A hipótese pressupõe que a taxa de desemprego de 5,1% é falsa.  Já falei em outras ocasiões sobre as denúncias do corpo técnico do IBGE contra o atual presidente petista Marcio Pochmann (ver o texto Pochmann, inflação e Mises[7]), mas veremos mais adiante que novos fatos surgiram. É possível dizer que o IPCA é de alguma forma blindado contra manipulação, principalmente por haver outras instituições não governamentais que apuram índices inflacionários. Por mais que sejam índices com metodologias diferentes, por exemplo, faixa de renda dos entrevistados ou abrangência geográfica, qualquer tentativa mais arrojada do IBGE de "enfeitar" o IPCA é muito arriscada (é claro que o risco não garante que não haverá manipulação).

No entanto, não podemos dizer o mesmo da taxa de desemprego, pois não há mais concorrência na pesquisa de dados do mercado de trabalho. Nem sempre foi assim. Tínhamos a PED do Dieese/Seade, que analisava o desemprego de algumas das principais regiões metropolitanas, inclusive prestando um serviço útil de revelar o desemprego oculto, mas as pesquisas foram encerradas por falta de financiamento, a de São Paulo, por exemplo, foi realizada até 2019 (atualmente ela é feita apenas no Distrito Federal). Em consequência, em relação às estatísticas do mercado de trabalho, temos apenas o suspeito IBGE de Pochmann. Recentemente houve uma pequena debandada do corpo técnico após a exoneração da pesquisadora Rebeca Palis, quando quatro servidores deixaram seus cargos em apoio a colega (três deles eram gerentes). Palis era coordenadora de Contas Nacionais, que é o departamento responsável pelo cálculo do PIB brasileiro. As coisas se tornam preocupantes quando vemos um jornal cuja redação foi filmada em êxtase na vitória de Lula na eleição de 2022 (ver https://www.metropoles.com/entretenimento/televisao/video-jornalistas-da-globo-celebram-vitoria-de-lula-emissora-comenta) e que, além disso, recebeu verbas publicitárias mais do que dobradas do atual governo em relação ao governo anterior[8], publicar um editorial com a seguinte manchete desfavorável ao governo:

Interface gráfica do usuário, Texto, Aplicativo, Email

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2026/01/troca-de-cupula-no-ibge-traz-risco-de-manipulacao.ghtml

Bom, se a hipótese é "conspiracionista", o Grupo Globo entrou para o time dos teóricos conspirativos no dia 29 de janeiro deste ano. Seja como for, o mais alarmante disso tudo é que o PIB também é monitorado de alguma forma por instituições não governamentais, ainda que de forma menos criteriosa que os índices de preços. Quer dizer, se Pochmann não está inibido em interferir em um indicador que é mais suscetível de ser taxado de "suspeito" por instituições como a FGV e bancos privados, por que ele teria alguma restrição no seu ímpeto manipulatório em uma pesquisa monopolizada como a PNAD? Em outras palavras, se o PIB, que é o pai dos indicadores, pode estar em risco, quem é a taxa de desemprego na fila do pão?


[1] 1998 (1,65%), 2006 (3,14%), 2017 (2,95%) e 2018 (3,75%).

[2] https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/12/16/aprovacao-desaprovacao-lula-quaest.ghtml

[3] https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2009/12/1222228-aprovacao-a-lula-atinge-72-a-maior-desde-o-inicio-de-seu-governo.shtml

[4] https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2010/10/1211080-aprovacao-do-governo-lula-atinge-82-novo-recorde-historico.shtml

[5] https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2025/04/brasil-registra-abertura-de-1-4-milhao-de-pequenos-negocios-no-primeiro-trimestre-do-ano

[6] https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45761-desocupacao-cai-para-5-1-em-dezembro-e-2025-tem-melhores-resultados-da-serie-historica#:~:text=A%20estimativa%20anual%20do%20n%C3%BAmero,em%20rela%C3%A7%C3%A3o%20ao%20ano%20anterior.

[7] Disponível em: https://cartas.sudes.com.br/pochmann-inflacao-e-mises/

[8] https://www.poder360.com.br/poder-midia/globo-recebeu-49-da-verba-de-publicidade-de-lula-na-tv/